segunda-feira, 11 de outubro de 2010

QUARTO BIOS E MIDIATIZAÇÃO

É preciso entender o que Sodré expõe quando fala em “espelho” (que dá nome ao seu livro). No capítulo “Ethos Midiatizado”, o autor mostra uma alteração na mídia tradicional (ou “linear”, a exemplo da TV e do cinema) onde as imagens são representadas realisticamente (como a retórica da hipotipose - descrição pitoresca de um evento) para a audiência externa. Na nova mídia digital, o usuário pode inserir-se nesta realidade, trocando a contemplação da representação pela participação direta.
O espelho midiático não é uma mera reprodução, reflexo, porque envolve uma nova forma de vida, onde os indivíduos são incluídos, com características diferentes de espaço e tempo, em relação à midia linear. Não pode esquecer: a nova vida aontada por Sodré está diretamente ligada à intervenções na dimensão espaço-tempo (como no conceito pós-modernista). Uma nova configuração social a partir da bios virtual, uma realidade não-conflitante com a real-histórico, o real tradicional.
Inclusive, na entrevista à revista da Fapesp, Sodré discorda do pensamento de Bourdieu acerca desta realidade, denominada de vida plasmada, vida idealizada. “Não acho que se trata de arrolar os efeitos catastróficos da televisão (que é o principal meio síntese imagem do século passado) sobre a realidade tradicional. Acho que se trata agora de identificar uma nova forma de vida, para cuja construção concorrem transformações importantes de toda uma estrutura social básica.”, afirmou o autor.
Como o espelho midiático não traduz-se em reflexo puro da realidade, mas há condicionantes que agem sobre esta reflexão e que esta por sua vez, agem no campo da vida social. Ou seja, o espelho também se configura como um processo de mediação na sociedade. Esta “midiatização”, com base na atual tecnologia, está inserida num campo social de “interatividade absoluta e conectividade permanente” (p.24). O artigo“Visibilidade midiática: entre estratégias das instituições e estratégias dos sujeitos”, de Eugenia Mariano da Rocha Barichello e Daiane Scheid explicam o pensamento de midiatização de Sodré, em que a “sociedade contemporânea rege-se pela midiatização, quer dizer, pela tendência à virtualização ou telerrealização das relações humanas” (p.4).
A midiatização é o quarto bios, além dos três exemplificados por Aristóteles, uma “tecnologia de sociabilidade”, uma nova forma de vida, intensamente tecnológica. E não esquecer: com influências diretas relação tempo e espaço.

BIOS VIRTUAL DE MUNIZ SODRÉ


O aspecto da mudança na comunicação nas últimas duas décadas, sobremodo na passagem do século, tem caracterizado o primeiro capítulo do livro do professor Muniz Sodré (“Antropológica do Espelho” - foto ao lado). Especialmente, neste período, a informação recebe uma variedade de formas (sons, imagens, dígitos) e transformam-se em produtos num mundo globalizado (para não dizer, moldado pelo neoliberalismo). O cenário leva o nome de “sociedade da informação” e, com o advento da internet, esta sociedade se dinamizou.
A internet insere-se no campo tecnológico que levou muitos a tratá-la como a grande invenção da virada do século, compadada à imprensa, aos tipos móveis de Gutenberg. A mudança comportamental em pessoas e instituições provocadas pela rede lembra uma “revolução”, a “Revolução da Informação” – como um segundo momento, após a Revolução Industrial –, que Sodré não concorda. muito: “As transformações tecnológicas da informação mostram-se francamente conservadoras das velhas estruturas do poder, embora possam aqui e ali agilizar o que, dentro dos parâmetros liberais, se chamaria “democratização” (p. 13).
Muniz acredita que o melhor termo seria “mutação tecnológica”, por “não se tratar de uma descoberta linearmente inovadora e sim, de inovação tecnológica do avanço científico”. O livro de Sodré é muito claro, com uma linguagem clara, objetiva que orienta e ao mesmo tempo contextualiza neste tempos de comunicação em rede. O autor, ainda tratando do assunto da revolução, lembra que a Revolução Industrial aproximava-se muito com a Revolução da Informação, quanto à maturação tecnológica. Cita, no entanto, que o forte da revolução industrial, que afetou costumes, a vida social, política e econômica, foi a invenção da ferrovia, na “mobilidade espacial”. Assemelha-se com a virtual, com a distribução de bens e da “ilusão da ubiquidade humana”. (p.14)
A semelhança não está tão somente no aspecto logísitico da informação (visto que passa a ser também um fator preponderante na sociedade da informação), uma infra-estrutura para a condução informacional, chamada por Sodré de “infovias”, mas um reordenamento mercadológico no mundo inteiro. A unificação da sociedade em rede transformou a vida do homem em suas relações sociais de trabalho, mas também o coloca em total vigilância, num “gigantesco dispositivo de espionagem global”.
É compreensível avaliar o pensamento de Sodré partindo do princípio do que ele chamou a nova mídia de um novo “bios”, não uma vida encarnada, mas atrelada ao conceito aristotélico de “conhecimento, prazer e política”. Muniz estabelece o quarto bios, o midiático, a vida como espectro, a virtualidade. “É real, tudo que se passa ali é real, mas não da mesma ordem da realidade das coisas.”, comentou o autor, em reportagem da revista da Fapesp.
Como a mídia é espectro, uma representação, sua realidade não é palpável, mas essencialmente discursivo. O pensamento de Sodré caminha sob a perspectiva de uma vida espectral, onde a cada dia tudo é mais visual, e, portanto, uma nova realidade, “um outro bios”. Este novo bios também reconfigura as concepções sobre jornalismo e meios de comunicação. Para Sodré, a TV, por exemplo, não age como um ator social isolado, mas suas manifestações são determinadas por fatores sociais e regionais. Ou seja, mesmo com atuação transnacional, a televisão produz efeitos específicos e regionalizados. “Enfim, no bios virtual, o objeto predomina sobre o sujeito”, afirma, na reportagem.
Baseado na ideia de simulacro, do espectro, Muniz amplia o conceito de mídia, que não baseia-se no princípio puramente do aparato técnico, mas transcende a TV, o rádio, o cinema, a internet, o jornal. Como em processo amplo de mediação (como Silvestone vê na circulação de significados, Barbero nas relações culturais), Sodré sinaliza para a mídia que atua no controle das relações sociais e o controle das novas subjetividades através das tecnologias de informação.
Portanto, vale observar este trecho da reportagem da revista da Fapesp:
“A partir de uma realidade sistêmica que foi ponto de partida e ponto de chegada das análises de Habermas, nasce essa verdadeira forma de vida que é o bios virtual. A ponta desse iceberg é o bios midiático, espécie de comunidade afetiva, de caráter técnico e mercadológico, onde impulsos digitais e imagens se convertem em prática social. É esse o objeto dessa nova ciência social chamada comunicação para Sodré.”

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

CRÍTICA AO MIDIACENTRISMO

Ao me aprofundar um pouco mais sobre os estudos de Martin-Barbero e o seu maior referencial teóríco-epistemológico acerca do deslocamento de uma análise metodológica comunicacional não a partir dos meios, mas das mediações, notei maior clareza quando o próprio Barbero deixa evidente em seu livro: “A comunicação se tornou para nós questão de mediações mais do que meios, questão de cultura e, portanto, não só de conhecimentos mas de re-conhecimento” (p.16). E torna-se mais compreensível este processo de descentralização ao observar o conceito de cultura abordado pelo autor.
O professor Laan Mendes de Barros aponta em seu artigo “Os Meios ou as Mediações?” apresenta o percurso interdisciplinar no pensamento de Barbero, solidificando a ideia de cultura, a partir de uma visão “antropologizada” e não tão-somente sociológica. Ou seja, ao considerar aspectos culturais sob o viés antropológico (de estudos primitivos) entende-se que cultura é tanto a oca quando quanto os parentes, tanto o machado quanto o mito (especificado por Barbero na página 13) e que, assim, a cultura não pode ser separada, descompartimentada. Sobretudo nas sociedade moderna alimentada por bens simbólicos (televisão, escola, igreja, imprensa), toda estas relações contribuem para a construção da vida social, caracterizando como uma cultura “antropologizada”. Barbero destaca essa visão visto que a sociologia, segundo ele, vê a cultura a partir de atividades e objetos, em sua maior parte, ligada às artes e às letras.
Todo este caminho socio-antropológico chega à comunicação na base crítica do “midiacentrismo”, da sociedade capitalista e dos meios de comuunicação. Base crítica, que Barros considera até mesmo refutações, ao direcionamento marxista, elitista (nos estudos da Indústria Cultural) da Escola de Frankfurt. É neste pavimento entre cultura e comunicação que o pensamento de Barbero se insere.
O deslocamento proposto é o diferencial dos estudos apresentados por Martin-Barbero na comunicação latinoamericana. E tais estudos culturais, cujo deslocamento sinzliza para o campo das recepções tem influenciado outros autores (não apenas na América Latina), mas também em outros continentes. Por isso, que ao falar de Barbero faz-se imprescindível observar cultura (linha sócio-antropológica), deslocamento teórico- metodológico de atenção da pesquisa dos meios para as mediações (crítica ao midiacentrismo predominante no pensamento dos estudos comunicacionais latinoamericanos), mediações como cultura social, mas também como produção de significado (numa associação ao pensamento de Silverstone) e confronto com o funcionalismo hegemônico na comunicação (marxismo, indústria cultural e Teoria Crítica).

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O PRINCÍPIO DA HEGEMONIA


A visão aplicada por Martin-Barbero em seus estudos na Teoria das Mediações Culturais também caminha pela interdisciplinaridade e não se distancia, apesar do posicionamento bem menos elitista da Escola de Frankfurt, sobre a Indústria Cultural. A Indústria Cultural baseia-se na ideia inexorável de dominação das massas, cujo discurso é assinalado por um receptor passivo, num processo de manipulação das consciências. Barbero apoia-se no conceito de hegemonia de Antonio Gramsci (foto) – que compreende a relação comunicacional proposta pelos Estudos Culturais –, mediante a ideia que tanto é possível admitir a reprodução do sistema de dominação, quanto é possível haver resistência a este sistema.
Observando o texto do professor José Guibson Delgado Dantas, sobre a Teoria das Mediações, o conceito de hegemonia gramsciano fez com que Barbero compreendesse o processo de comunicação além dos meios, movendo o eixo para as mediações, observando suas variedades sociais. Estas variedades estão relacionadas à estrutura (classe social, experiências, conhecimentos, família), instituição (escola, igreja, política, esporte), conjuntura (modo de enxergar a vida, acervo cultural) e tecnologia (televisão, rádio, cinema, etc.).
Ou seja, Barbero foi observar todo conjunto de estratégias organizado pelo dominador, mas o mais impressionante, “os elementos que no dominado trabalham a favor do dominador”. Ou melhor, reside uma relação inconsciente de concordância, uma cumplicidade e como acentuado por Dantas, uma sedução que os permeia. O autor cita Luciano Gruppi (2000, p 3), estudioso de Gramsci, que esclarece que o conceito de hegemonia não atua sobre uma base econômica ou política, mas sobre outras estruturas como modo de pensar e “orientações ideológicas”.
Desta forma, a hegemonia não é estática ou centralizada, porém dinâmica. E para que exista a hegemonia é necessário à classe dominadora representar interesses que a classe dominada também reconhece como seus. Barbero aponta que a hegemonia “é um processo vivido, feito não só de força mas também de sentido pelo poder, de sedução e pela cumplicidade” (p.116). A hegemonia, portanto, não caracteriza-se como um processo em que o dominador intenta esmagar o dominado. Apresenta-se como um elemento que se faz necessário modificar-se constantemente sob o ponto de vista dos dois extremos.
Fica claro, com a fundamentação no pensamento gramsciano sob o papel dos Estudos Culturais, que os meios de comunicação não atuam no receptor como uma espécie de “agulha hipodérmica”, em que este receptor não terá a capacidade de fazer avaliações críticas deste conteúdo simbólico. Ele não é um mero decodificador da mensagem dos meios. Por isso, o eixo é deslocado para a cultura, pois o receptor pode muito bem ignorar conteúdo em que julgue não ser de interesse próprio, de seu grupo, conforme seus valores sociais.
Na cultura popular nem todo discurso hegemônico surtiu efeito em dado povo, diante das resistências e das remodelações da simbologia popular. Isso mostra que o poder hegemônio não atua de forma direta e acintosa, mas precisa submeter-se a uma negociação constante com a classe dominada, a fim de estabelecer interesses comuns e compactuado.
A hegemonia também se deu no processo do popular para o massivo no contexto histórico-social na América Latina. A enculturação patrocinadada pelo Estado-nação, quanto aos usos, línguas, costumes, crenças possibilitou a homoneigização da massa e isso não foi alcançado por meio da força repressiva no século XVII, mas pela produção simbólica. Quer dizer, não há processo hegemônico sem que o povo tenha acesso às linguagens deste discurso, sem a circulação desta produção simbólica.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

OS ESTUDOS CULTURAIS CRÍTICOS

Fazendo um passeio pela internet, deparei com o texto “Uma Abordagem Multiperspectívica para os Estudos de Recepção: o Caso Lasier Martins versus MST”, de Vilso Junior Chierentin Santi e Fábio Souza da Cruz. Não vou entrar no mérito do tema abordado na pesquisa da dupla, mas num ponto que me chamou a atenção a partir de meus estudos acerca dos culturalistas. Um ponto precisa ser considerado: as relações dos meios de comunicação com as matrizes culturais, em especial a movimentos (como no caso específico aqui, o MST). Isso leva a pensar a comunicação além das teorias funcionalistas que concebiam as mídias como “novas ferramentas das democracias modernas, como mecanismos decisivos de regualaç
ão da sociedade” (MATTELART apud SANTAELLA, p.39). Pode considerar tal ponto de vista como princípio ou mesmo como utopia.
As relações precisam ser vistas sob à visão de estudos críticos da comunicação e o caminho estaria nos Estudos Culturais, que no Brasil desembarcaram a partir de três momentos. “O primeiro deles foi a tradução para o português a obra “Cultura e Sociedade” de Raymond Willians em 1970.
O segundo, o lançamento do livro “Dos Meios às Mediações” de Jesús Martín-Barbero e a difusão das idéi
as de outros autores como Néstor García Canclini”. Outros nomes emergem na atualidade para os Estudos Culturais Criticos, como o do americano Douglas Kellner (foto ao lado). O autor defende que não há como dissociar cultura e mídia e que as produções midiáticas são sempre englobadas pela cultura. E propõe o que ele den
omina como “Pedagogia Crítica da Mídia”, consistindo na “resistência à manipulação e a tonificação do repector frente à cultura midiática dominante”.
Portanto, percebe-se uma forte tendência de observar a recepção nas articulações entre meios de comunicação e os movimentos sociais. Barbero desloca o eixo dos meios para as mediações, avaliando questões temporais e a pluralidade de matrizes culturais. (p.280). Encaminhei-me ao texto de Barbero (A Mistura do Povo e Massa no Urbano) que observa tais pluralidades e critica posicionamentos maniqueístas na concepção entre popular e urbano, como o mito de atrelar o urbano ao “antônimo de popular”. Tal conceito é considerado por Barbero como um renitente posicionamento da elite aristocrática.
Diante de um universo de percepção que divide o popular do urbano, caracterizando o primeiro como ingênuo, imaturo e politicamente infantil, e o segundo como ligado a uma cultura maturada, surgem novas reflexões sobre o popular urbano, cujas identificações seriam modificadas ou “homogeinizadas” pela Indústria Cultural: os impactos provocados pelo advento do rádio e do cinema (convertendo o populismo em nacionalismo na América Latina) e, em seguida, pela televisão (com ações mais dinâmicas a partir dos anos 60), com a difusão de bens e produtos, o discurso sobre o que é modernidade e o que é anacrônico, e a linguagem. “O rádio nacionalizou o idioma, mas preservou alguns ritmos, sotaques, tons. A televisão unifica para todo o País uma fala na qual, exceto para efeito de folclorização, a tendência é para a erradicação das entonações regionais” (p.280)
Voltando para os estudos culturais, nota-se o deslocamento do eixo dos meios para as mediações e ao mover aos atores sociais, em suas matrizes culturais, desenvolve-se, então, toda a complexidade dos estudos das mediações. Como citado no texto, “estudar a cultura da mídia também implica em realizar uma investigação que desloque a ênfase dos meios para as mediações, promovendo uma integração entre produção, texto e recepção (CRUZ, 2006, p.69)”.
Partindo para os atores sociais, pode-se admitir que, deixa-se os espaços restritos da mídia para entrar no campo vasto das mediações e a entender todo o processo de recepção ante a diferentes receptores e que tais receptores comportam-se de forma diferente ante a informação veiculada, ante ao discurso, ante à produção simbólica da mídia. Inclusive, grupos expõem reação de resistência a esta produção simbólica, não compactuando com sua essência. Outros aceitam em parte, descartando aquilo que não convém; outros, simplesmente aceitam o discurso em sua totalidade, reproduzindo-o em seguida.
Este processo de recepção se dá em dimensões que merecem ser consideradas e não apenas no manejamento do receptor com a máquina difusora das informações. Ou seja, a influência (ou não) dos meios e das mensagens não se estabelecem tão somente no momento em que a televisão é ligada e desligada. Ela provoca contornos em diversos agentes e instituições sociais, como apontado por Orozco Gomes. É o que o trabalho nomina como avaliar o abarcamento do nível empírico. O estudo de recepção necessitaria de avalar o volume e os diversos cenários sociais deste abarcamento.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ILUSTRADOS E ROMÂNTICOS

Aproveito para observar um texto acerca da obra “Dos Meios às Mediações”, do professor espanhol e pesquisador no México, Jésus Martin-Barbero, um dos maiores expoentes dos Estudos Culturais na contemporaneidade. E começo fazendo um rápido relato acerca de seu pensamento sobre “Povo e Classe: do anarquismo e marxismo” (p.43). Barbero apresenta distinção acerca de movimento do povo na política (chamado de ilustrados) e do povo na cultura (chamado de românticos), que assemelha-se à visão de dominação, de burguesia de Marx. Tal separação faz surgir categorias como “culto” e “popular”, apresentando o popular como “inculto”. Barbero aponta tal raciocínio como “definição do povo por exclusão, tanto da riqueza como do ofício político e da educação” (p.37).
A diferença, para Barbero, não torna estas duas categorias interdependentes. Para o autor, a relação do popular na cultura baseia-se na relação que este povo adquire na política
“como é elaborada pela Ilustração”. Mas, aponta uma característica própria da cultura popular, não formada por influências de cima para baixo, das classes dominantes, do movimento ilustrado. Mas, que é preciso aceitar a existência de um pluralidade de culturas, que como exemplificado por Herder, reflete-se em modos diversos na configuração da vida social. E que o movimento romântico faz crer na existência de outra cultura, além da cultura hegemônica.
Aliás, Barbero sinaliza para o que ele chama de “ruptura do exclusivismo cultural”, questionando posições tanto de romãnticos quanto de ilustrados. Românticos mediante ao discurso de resgate da cultura popular, negando a circulação cultural ou o “processo histórico de formação do popular e o sentido social das diferenças sociais”. Ilustrados, devido pelo perfil evolucionista, de encarar o popular como o atrasado no desenvolvimento da humanidade (observação européia).
Tem-se então, uma abertura para uma avaliação antropológica acerca das diversidades culturais. Nota-se uma diferença acerca do pensamento cultural entre Barbero e Marx, quando o primeiro vê que o popular consegue se infiltrar no massivo, mantendo suas tradições e sua cultura. O princípio marxista entende que as ideias de uma época são as ideias de uma classe dominante e, “por mais que haja as visões que fujam a essas idéias, elas não podem empreender mudanças concretas na sociedade apenas em âmbito cultural”. Ou seja, Marx faz uma associação direta da cultura com a economia. Barbero vê a cultura em suas relações sociais.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

MEDIAÇÃO

Para Silverstone, a mídia é um processo de mediação, que implica, não apenas no movimento de significados, mas nas transformações destes significados em todos os seus estágios. Esta circulação gerada pela mídia também tem a colaboração dos indivíduos em sua relação da mídia com a experiência (como citado no texto anterior). Quer dizer, a meciação é a circulação de significados. O autor acrescenta que esta circulação é mais que o esquema proposto por Lazarsfeld e Katz, no conceito denominado two step flow - ou o fluxo em dois passos -, em que a informação esbarra nos líderes, que repassam aos indivíduos.
Os significados circulam em toda a produção da mídia e tais significados são consumidos e produzidos pela audiência. Desta produção, surgem as ações, interações, relações com o mundo (mundo este apontado por Silverstone como o “mundo da mídia, o mundo mediado, o mundo da mediação”). Neste mundo complexo, é complexo também entender o poder da mídia, diante da sua presença simbólica na sociedade e a relação desta com a mídia. E pesquisar este tema traduz-se em analisar a mídia estando dentro dela. O pesquisador está inserido dentro desta cultura midiática e sua produção significam, do mesmo modo, produto do processo de mediação. E faz um comparativo: “somos linguistas tentando analisar a sua própria língua” (p.34). Desvencilhar-se disso é o mesmo que o homem sair do alcance de sua sombra, como aponta Steiner.
A mediação trata a significação como o movimento hermenêutico de uma tradução. Uma relação que consiste em quatro pontos: confiança (valor de que quer compreender o que é traduzido), agressão (pela apropriação, pela suposta posse de seu significado), apropriação (levar os significados para casa) e restituição (a forma com o tradutor devolve o significado). Como mostra Luís Borges, “nenhuma tradução pode ser perfeita”. Portanto, nenhuma mediação também é perfeita.
Silverstone afirma que é preciso compreender todo o processo de mediação, como os significados são construídos e quais as suas consequências. E perceber também quando este processo é falível e quando estes significados são deturpados por força tecnológica ou de propósito com fins de atender a interesses do poder, de indivíduos ou instituições.