segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

PALAVRAS QUE RESUMEM

Vou postar aqui algumas palavras-chave ou linha de pensamento acerca dos autores até então abordados acerca da mídia e dos Estudos Culturais.

VISÃO DE MÍDIA
MUNIZ SODRÉ: “ambiência” - Tudo é cada vez menos substancial e mais visual, mutação tecnológica
SILVESTONE: É um processo, onde as pessoas se congregam. É político e econômico.
BARBERO: Midiacentrismo, cultura socio-antropológica, crítica ao funcionalismo e deslocamento às mediações.
KELLNER: Mídia na formação da identidade, crítica à Escola de Frankfurt

VISÃO DE CULTURA
BARBERO: cultura antropologizada, manifestações da massa
SILVERSTONE: Textura geral da experiência, sociedade ligada à mídia
MUNIZ SODRÉ: Midiatização, indivíduos inseridos no quarto bios, semiótica indicial
KELLNER: Identidades construídas, dominação ideológica, resistência, Materialismo Cultural

CONSUMO
KELLNER: Entretenimento é o principal produto, infoentretenimento
SILVERSTONE: Produtos simbólicos que formam identidade

IDENTIDADE
KELLNER: Contracultura (Spike Lee, Ice T), Madonna e Miami Vice (identidade pós-modernista instável)

MÍDIA E RECEPÇÃO
BRAGA: a crítica social da mídia (conversas informais, academia, ombudsman, carta dos leitores), a aprendizagem ofertada a partir destas intervenções (aperfeiçoamento dos produtos midiáticos), o controle social e a ação social com base no sistema de resposta (terceiro ponto, além de emissão e recepção).

TICS E SOCIEDADE
MIÈGE: Enraizamento, Sociedade Midiatizada pelas técnicas, sete processos, comunicação/informação (sociedade midiatizada)

SOCIEDADE
MIÈGE: Sociedade midiatizada pelas técnicas
BRAGA: reação social da mídia, visibilidade dos processos sociais

MEDIAÇÃO
MUNIZ SODRÉ: conteúdo circulante em ambiente virtual
SILVESTONE: Circulação de significados, molda ações e reações
BARBERO: Deslocamento para cultura, observar aspectos da recepção
KELLNER: Produção simbólica via entretenimento.
MIÈGE: existe nas sociedades há muito tempo nos âmbitos cultural, social, político e jurídico (p.3), ligação da sociedade com novas tecnologias (determina as mudanças e as demandas)

MIDIATIZAÇÃO
MIÈGE: comunicação/informação, expansão técnica
MUNIZ SODRÉ: interatividade absoluta e conectividade permanente, quarto bios

ENRAIZAMENTO DE MIÈGE
A sociedade determina o desenvolvimento técnico e este desenvolvimento é constantemente melhorado também por uma ação social



terça-feira, 2 de novembro de 2010

O TECNODETERMINISMO PREGNANTE

Na leitura do livro de Miège, “A Sociedade tecida pela comunicação”, percebe-se que o autor inicia fazendo uma abordagem técnico-social das Tics. Expõe que as técnicas não surgiram para a mídia, mas que que fazem parte de uma gama social que compreende todos os âmbitos. Também mostra que os estudos da comunicação dedicaram reduzida atenção às técnicas de comunicação-informação, enfatizando atualmente questões sócio-simbólicas promovidas pelos meios. Miège cita, como exemplo, as pesquisas relacionadas à televisão, que inicialmente caminhou-se pela técnica e suas características afins, perdurando por vários anos.
O tecnodeterminismo baseia-se na difusão das técnicas em todos os campos sociais. Miège mostra que o técnico e social são inseparáveis, o que leva a observação de José Luiz Braga acerca das demandas sociais que impulsionam o progresso tecnológico. Miège suscita uma reflexão: “Antes de tentarmos situar o técnico, é interessante paramos para refletir sobre a onipresença dos discursos técnicos” (p. 26)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

CONEXÃO DAS TICS E OS SETE PROCESSOS DE MIÈGE

Fazer uma conexão entre desenvolvimento técnico e práticas sociais é a base dos estudos de Miège. Esta relação está atrelada diretamente com o aparecimento das Tics, as tecnologias de informação e comunicação. Tal relacionamento era pouco analisado pelos estudos da comunicação, que limitava-se a compreender uma transformação social a partir da midiatização, não a partir de seus instrumentos tecnológicos enraizados nesta sociedade. Por isso, Miège esclarece que é preciso medidas profiláticas na abordagem de novas ferramentas de Tic, visto que é necessário observar sua acomodação social e de que forma se processará o enraizamento.
Está claro, como Miège aponta que Tic é tudo aquilo que coloca o indivíduo em comunicação, notadamente as ferramentas e os desdobramentos em torno delas, como o caso da telefonia e, subsequentemente, a internet; a internet e, em seguida, os dispositivos móveis de conexão, como os smartphones e os tablets. A definição da Tic sinaliza para a observação dos processos de mediação e enraizamento social, base também das análises do autor.
Uma forma de mediação é a ligação entre a sociedade e as novas tecnologias. Braga mostra que as demandas sociais é que proporcionam o avanço tecnológico e não o contrário, como se a tecnologia regesse as práticas da sociedade. Este diálogo coadnua com o pensamento de Miège: a sociedade determina o desenvolvimento técnico e este desenvolvimento é constantemente melhorado também por uma ação social. Isto é o que caracteriza a mediação e o enraizamento social.
Este contínuo desenvolvimento da sociedade e das tecnologias de informação leva Miège a apontar sete processos de enraizamento, seegundo aponta Gambaro (2009, p.6) no artigo “O uso das novas TICs pelas emissoras de rádio: uma análise dos casos paulistanos e o referencial de Bernard Miège”:

1) A informacionalização, ou seja, o aumento na oferta de informações, tanto daquelas editadas por profissionais no âmbito das empresas de comunicação, como aquelas produzidas por leigos ou de caráter técnico, que outrora seria principalmente de circulação restrita. A esse processo podemos ligar, por exemplo, o uso de ferramentas como blogs e fóruns.

2) A mediatização da comunicação, que responde pela maior presença de tecnologia nas relações de comunicação (como os e-mails, os jornais na internet, o rádio via web, etc). No entanto, isso não significa que modos anteriores de comunicação, foram ou estão em vias de serem substituídos: na verdade, as tecnologias se somam àquelas já existentes, com alguma adaptação da audiência. O mais relevante é que o processo de mediatização implica diretamente em uma aquisição de competências comunicacionais pelos usuários, e tais competências são conquistadas com os usos, cada vez mais individualizados.

3) Ampliação da esfera midiática; esse processo considera a concorrência que os meios de comunicação de massa enfrentam com os serviços originados a partir da novas TICs, o que resulta diretamente numa pluralidade de dispositivos pelos quais os meios de comunicação distribuem seus conteúdos. Existem nesse contexto dois fatos importantes: os portais de internet ganham maior importância e complexidade, e de certa forma os consumidores esperam que os novos meios se distingam dos anteriores, indo além da comunicação quase unidirecional para práticas mediáticas menos dirigidas e mais interativas. É importante notar que não ocorre substituição dos meios de comunicação de massa pelos serviços de acesso individual a informação.

4) Mercantilização das atividades comunicacionais, ou seja, abre-se a possibilidade de um mercado que pode cobrar do usuário final por práticas de comunicação que, dada em outra esfera distante de certas modalidades tecnológicas seriam gratuitas.

5) A generalização das relações públicas surge com a aproximação dos recurso tecnológicos nos diferentes estratos profissionais, de forma que os departamentos de relações públicas das empresas não ficaram de fora, sendo alçados aos status de produtores de conhecimento (e informação) com credibilidade reconhecida.

6) A diferenciação das práticas sociais; ao definir este processo, Miège indica que as práticas originadas com os usos sociais das novas TICs não significam o abandono de práticas anteriores, possíveis dentro de outras tecnologias. As práticas sociais botam em movimento todo um sistema de identificação sócio-simbólico que torna possível diferenciar social e culturalmente, por exemplo, a audição do rádio no carro, indo ao trabalho, e de um programa acessado via podcast. Outro ponto importante a ser considerado é que as tecnologias não vão reordenar as coisas: continua havendo diferenças nos acessos às tecnologias como há diferenças nos usos, pois existe uma estratificação no acesso que não é tão facilmente rompida. Essa estratificação não corresponde somente aos jogos entre indivíduos economicamente distintos, como também às diferentes gerações de pessoas e os usos dados às tecnologias: se os chats e sites de perfis podem servir como desvios sociais para os mais jovens, as pessoas de mais idade tendem a fazer deles um uso mais próximo das práticas cotidianas.

7) A circulação dos fluxos e a transnacionalização das atividades infocomunicacionais; o que indica uma interdependência entre a globalização e as TICs.

PENSAMENTO DE MIÈGE: COMUNICAÇÃO E TECNOLOGIA


É importante considerar o pensamento do teórico francês Bernard Miège (foto), no que refere-se à relação entre comunicação e tecnologia, sobretudo no século XXI, quando vê a formação de uma sociedade midiatizada, ambientada num universo digital, que como Muniz Sodré esclarece trata-se de uma nova vivência social, proporcionada pelos avanços tecnológicos. As chamadas Tics (Tecnologias digitais de Informação e Comunicação) consolidam e reforçam este aspecto social, sob aspecto de produção, consumo e interrelacionamento entre os indivíduos. Com o incremento das Tics, a própria designação da sociedade da informação ficou mais ampla, abarcando características da modernidade. E para comprrender a visão de Miège sobre esta nova sociedade no campo da comunicação, é preciso considerar: a informacionalização; a promoção das tecnologias e das redes como fator dominante ao conteúdo; a modificação e a expansão dos sistemas midiáticos; e o controle transnacional do fluxo de informação e comunicação.
Estes pontos foram citados na entrevista que Miège concedeu a revista Matrizes, da Usp. O autor mostra que a comunicação moderna não engloba apenas a comunicação pessoal, mas observa o que ele conceituou como “comunicação/informação”, a partir da observação de uma sociedade midiatizada iniciada em meados do século passado. O conceito de comunicação/informação está associada a uma articulação entre os dois, que supera a visão ideológica ou de manipulação da comunicação, mas vê também que a informação é meio de interação entre os atores sociais. As Tics reforçam esta relação, impregnando-se na sociedade e no avanço ao longo do tempo. É o que Miége trata de "dupla mediação", em que a mediação é ao mesmo tempo técnica e, ao mesmo tempo, social. (p. 46 do livro A Sociedade tecida pela comunicação).
A princípio tenho percebido uma relação de visão também técnica da comunicação que me remete à Shannon e Weaver, na primeira metade do século XX e a Teoria da Informação, que observou uma teia comunicacional iniciada no emissor até o receptor, observando a produção sob um canal e distorções como efeitos de ruído. Nota-se uma relação com as novas Tics, visto que como a Teoria da Informação destaca relação com os campos sociais a partir das técnicas físicas de transmissão de dados, vê-se atualmente algo bem mais maturado, onde as técnicas estão inseridas como extensão desta sociedade midiatizada.
Miège deixa isso bem evidente ao fazer uma comparação entre a atual comunicação midiatizada e a mediação cultural proporcionada pela mídia. Esclarece que o “fenômeno da mediação existe nas sociedades há muito tempo nos âmbitos cultural, social, político e jurídico” (p.3), e que, portanto, a comunicação/informação refere-se a midiatização.

“Miège propõe o termo «comunicação midiatizada» para introduzir o papel das TICs nos processos de comunicação, não como um elemento redutor de oposição entre as mídias de massa (consideradas bastante diretivas em seu discurso e unidirecionais) e as mídias digitais (onde as TICs possibilitam a emergência da self media). A comunicação midiatizada é muito mais ampla e complexa, configurando novos sistemas de comunicação nos quais os principais atores são não apenas os grandes conglomerados comunicacionais, os construtores materiais e o Estado, mas também as diferentes categorias de usuários considerados como atores estratégicos desse novo processo”

A expansão técnica, de equipamentos neste processo de midiatização, leva a novas práticas sociais. A produção de conteúdo deixa de ser uma atribuição tão somente dos grandes conglomerados de mídia, por serem detentores da tecnologia antes inacessível ao público em geral. As Tics possibilitaram que mais indivíduos pudessem produzir conteúdo e de serem vistos. Importante citar também que as técnicas que tornaram possíveis a produção de conteúdo também oferecem uma gama de possibilitade de aquisição de informação. E nunca houve tanto acesso à informação na ambiência digital de uma sociedade midiatizada, que supera a simples contemplação da realidade mostrada pelos meios de comunicação e passa a inserir-se na representação com participação direta, como esclarece Sodré.
Miège faz um comparativo da rede digital na esfera pública e privada. A mesma rede que serve a todos, na sociedade midiatizada, é instrumento de lazer, de trabalho e de espaço público. “É isso que seduz nas TICs. É que faz com que pessoas sem formação técnica, como as crianças, a dominem. Somos autodidatas no uso das ferramentas da comunicação”, diz o autor. As Tics alteraram também a visão unidirecional da mídia do passado. TVs, rádios e imprensa se modificam para atender a uma sociedade conectada e onde estas conexões tendem a associar à mobilidade.
Esta sociedade atreladas à tecnologia da informação e da comunicação caracteriza-se também por um processo chamado pelo autor de “enraizamento”, diferente dos conceitos de “inserção social” ou “inclusão social”, que torna-se mais complexo e além do uso. Sua teoria fundamenta-se em sete processos, a saber: a informacionalização, a mediatizacao da comunicação, a ampliação do campo midiático, a mercantilização das atividades comunicacionais, a generalização das relações públicas, a diferenciação das práticas e a circulação em fluxos e transnacionalização das atividades.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

EMISSÃO, RECEPÇÃO E UM TERCEIRO SISTEMA


Emissão e recepção. Parece que os eixos tradicionais apontados pela Teoria da Comunicação são capazes de agregar uma gama de possibilidades e de atuação da mídia junto ao público. O pensamento do professor José Luiz Braga (foto abaixo), no livro “A Sociedade Enfrenta a Sua Mídia” é de que estes dois pontos não contemplam aspectos diretos de interação da audiência. Interação essa capaz de promover modificações no produto e nos meios de comunicação. Baseando tão somente no título de sua obra, percebe-se que esta sociedade detém dispositivos que avaliam e criticam a mídia, e também instrumentos eficazes que interagem sobre a circulação do conteúdo simbólico.
O dualismo emissão e recepção, a partir dos estudos da comunicação, historicamente observou a mídia como centro, capaz de promover modificações na sociedade. Esta, por sua vez, não manifestava-se ante à sua produção, assimilando todo o significado, consistindo num processo de dominação-dominado que lembra a Teoria da Agulha Hipodérmica ou mesmo a essência da Indústria Cultural, baseada numa manipulação inexorável das massas.
No âmbito da cultura, percebe-se que os nichos sociais e suas manifestações peculiares, tem recepcionado o conteúdo da mídia de diferentes modos. É fundamentação mais evidente da Teoria das Mediações Culturais, quando o deslocamento dos estudos deixam os meios e seguem para as mediações, observando seu aspecto de formação sócio-antropológica. Braga propõe um modelo que reforça a importância da mediação, que ele denominou de “sistema de circulação interacional” ou como Paulo Vaz menciona no prefácio, a terceira via que seria o “sistema de resposta”. Ou seja, a capacidade de audiência criticar, avaliar, julgar e resistir aos produtos midiáticos.
Há uma relação impressionante nos livros abordados neste blog, quanto aos autores que observam a recepção sob um viés pouco, senão nunca antes analisado. Kellner estimula o que ele adota como Pedagogia Crítica da Mídia, um instrumento para dotar a sociedade de capacidade para enfrentar a mídia e filtrar todo o seu conteúdo simbólico. Sobretudo quando Kellner vê a mídia como meio de dominação, que busca impor a ideologia das camadas mais poderosas ao injetar na sociedade uma cultura toda baseada nas produções midiáticas. Seja do ponto de vista político, ideológico ou de comportamento, a cultura da mídia quer formatar
o pensamento de uma sociedade, embora esta mesma mídia seja capaz de oferecer ferramentas para que haja resistência da audiencia a ela.
Tudo isso para mostrar o que está além da campo da emissão-recepção e que Braga propõe-se a apresentar. O artigo de Mayra Rodrigues Gomes classifica esta terceira vertente desta relação com a mídia como “Um conceito para sanar a invisibilidade dos processos sociais sobre as mídias”, um título que mostra-se apropriado para exemplificar como a audiência era percebida até então pelos estudos comunicacionais, como invisíveis ante um processo complexo de mediação. Gomes mostra que este novo conceito oferece um papel ativo à recepção de redimensionar, redirecionar e ressignificar os produtos da emissão.
Este terceiro sistema manifesta-se uma correlação com os demais sistemas. O “sistema de circulação interacional” é apresentado por Braga como ciclo contínuo de uma mediação dinâmica que parte da mídia e que é retomada a ela, que manifesta-se com novas modificações no conteúdo e produtos subsequentemente apresentados. Então, “o sistema de interações sociais sobre a mídia se exerce como parte integrante dos sistemas de produção e recepção. Enquanto momento posterior à recepção, remete-nos ao ponto em que as propostas da mídia se reconfiguram, retomando os anteriores subsistemas, de forma a também abarcá-los nessa reconfiguração” (GOMES, p. 2).

Este ciclo de relações sociais com a mídia, em que a emissão produz, a recepção consome e avalia, ao mesmo tempo, em que retroalimenta a mídia é a base principal dos estudos de Braga. Este sistema processual possibilita, além do fluxo tradicionalmente observado nos estudos da mídia, mas auxilia na compreensão da produção midiática em constante mudança, devido às intervenções críticas da sociedade. O foco do autor é exatamente este: a crítica social da mídia, a aprendizagem ofertada a partir destas intervenções, o controle social e a ação social com base no sistema de resposta.
Braga analisa trabalhos que coadnuam com o sistema de interação social, que constituem uma reação à produção da mídia e não podem ser consideradas apenas como uma manifestação apontada como extramidiática. Mesmo as produções acadêmicas inserem-se na lógica do sistema de resposta de Braga, bem como as discussões de indivíduos em bares, ou as cartas encaminhadas pelos leitores aos ombudsman dos jornais. São objetos que comprovam o dinamismo no processo de circulação de significados. Braga limita-se à selecionar críticas acadêmicas e especializadas.
Os objetos de análise dos estudos de Braga são a coluna de Bernardo Ajzenberg (ombudsman da Folha de S. Paulo), a coluna Conselho do Leitor, da Zero Hora, e o site Observatório da Imprensa. Estas escolhas enquadram-se na perspectiva da crítica especializada. Acerca de obras que abordam a mídia especialmente, sob diferentes viéses, estão A arte de fazer um jornal diário, de Ricardo Noblat, O jornalismo nos anos 90, de Luís Nassif, e A televisão levada a sério, de Arlindo Machado.
Estes objetos são apenas exemplos de um conglomerado muito mais amplo de vozes e de instrumentos de crítica da mídia. Até mesmo as redes sociais na internet servem de parâmetro instantâneo para os veículos de comunicação se autoavaliarem e considerar a reação da audiência diante de sua postura. O conceito proposto por Braga é, de fato, extenso e importante, o que em seus exemplos já deixam bem evidentes. É o que Gomes define: “Toda atividade reflexiva, ou mais particularmente o exercício filosófico, consiste na criação de conceitos com os quais possamos enfrentar as dificuldades teóricas com que nos confrontamos. Descortinando perspectivas de conhecimento, panoramas de hipóteses e espaços de experimentação, é esse o trabalho que realiza José Luiz Braga”. (p. 4)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

MATERIALISMO CULTURAL


Douglas Kellner é um ferrenho defensor dos Estudos Culturais Críticos, ao ponto de preocupar-se com a situação que tais estudos estão alcançando em vários países. Segundo ele, os Estudos Críticos estariam perdendo o cunho crítico e político, tornando-se inofensivo e até mesmo, defensor dos interesses da indústria cultural. Para evitar que os Estudos Culturais percam-se em seus propósitos, Kellner aponta um caráter multiperspectívico da pesquisa, observando aspectos dos produtores culturais, da significação do texto e da reação da audiência.
É, neste ponto, que Kellner recorre ao Materialismo Cultural, que aborda a relação da mídia e cultura e faz “análise de todas as formas de significação dentro dos reais meios e condições de produção”, numa definição de Raymond Willliams (foto ao lado, p.63). Significa que, para fazer uma análise da cultura da mídia, é importante – com base no materialismo cultural – situar o objeto entre seu modo de produção, atuação e consumo. O autor ressalta a importância da economia política neste caso, que “constrange ao que pode e não pode ser produzido, que impõe limites e possibilidades para a produção cultural” (p.64).
Então, a base dos Estudos Críticos Culturais surge quando nota-se que a produção da mídia tem relação com as estruturas de poder e de dominação, servindo para reprodução de significados dos poderosos. Porém, tal produção capacita à audiência também de resistir e de lutar.
O enunciado de Kellner perpassa ainda pelo foco do Materialismo Cultural, quanto aos efeitos dos receptores. “Os textos da mídia seduzem, fascinam, comovem, posicionam e influenciam seu público” (p.64). Fica fácil compreender que o Materialismo Cultural vê como os textos culturais agem na audiência, qual a significação oferecida, de que maneira atua sob o público, mas também observa as reações contra-hegemônicas, de como elas manifestam-se também apresentadas na cultura da mídia (por exemplo, os filmes de Spike Lee e o rap do Ice T).

domingo, 24 de outubro de 2010

MÍDIA E CONSUMO: VOCÊ É O QUE CONSOME

Verifiquei uma relação bastante importante entre os teóricos Roger Silverstone e Douglas Kellner quanto à cultura da mídia, destacando uma conexão com o consumo. Esta relação foi possível a partir da leitura do artigo de Rose Rocha e Gisela Castro, “Cultura da mídia, cultura do consumo: imagem e espetáculo no discurso pós-moderno”, que aponta uma ligação direta entre o modo de viver dos indivíduos a partir dos padrões fornecidos pela mídia. Há um capítulo no livro “Porque Estudar a Mídia?” que destaca o consumo, onde Silverstone relembra sobre o que é a mídia e a mediação; que a mídia exprime a experiência, o modo de viver das pessoas, baseia-se no senso comum e no conjunto destas experiências, ela também se manifesta; que a mídia não traduz-se num aglomerado de instituições que atuam inocentemente ou sem qualquer intenção. A mídia deve ser entendida, como mencionado pelo autor, como um processo, um processo constante de mediação – de circulação de significados.
Ao considerar aspectos da mídia e do consumo, retorna-se a visão para o papel da Indústria Cultural, da teoria crítica, sob o pressuposto explicitado por Kellner, que a mídia produz para atender à interesses de seus controladores, representantes de grandes conglomerados de entretenimento. Aí é a chave para entender a relação mídia e consumo. A mídia produz entretenimento, baseado numa identificação com a audiência, e esta produção tem a intenção de seduzir o público. Kellner mostra que tais mensagens de conquista, estratégias subliminares de atração da audiência, são “agradabilíssimas” por utilizar meios audiovisuais, “usando o espetáculo para seduzir o público e levá-lo a identificar-se com certas opiniões, atitudes, sentimentos e disposições” (p. 11). Este poder da mídia é o que caracteriza o consumo. Entretenimento é o principal produto oferecido pela cultura da mídia.
Comprar é uma atividade do cotidiano. Diariamente somos persuadidos pela mídia a consumir e consumimos todos os dias, seja individual ou coletivamente. “Ela apazigua ansiedades quanto à nossa capacidade de sobreviver e prosperar no que diz respeito tanto à subsistência como ao status” (SILVERSTONE, p. 148). O mercado amplia-se à esta ideia de consumo com o shopping-centers, as lojas de departamentos, os serviços de telemarketing e de comércio pela internet. Algo que parece tão trivial, banal, a atividade de consumo está visceralmente atreladas ao cotidiano do indivíduo. Porém, uma atividade trivial assim manifesta-se complexa. Não se consome por consumir. Há uma conexão com a mediação proporcionada pela mídia. Silverstone mostra que consumimos pela mídia, consumimos a mídia e aprendemos a consumir através da mídia.
Neste processo de influência da mídia no consumo, a mídia que fabrica seus próprios produtos, impregnados de sedução para atrair a audiência, oferece produtos simbólicos que constrói o significado dos indivíduos. “Negociamos nossos valores e, ao fazê-lo, tornamos nosso mundo significativo” (p.150). Ou seja, para Silverstone, as pessoas são o que consomem e não o que fazem ou o que pensam.
O fato da mídia utilizar do entretenimento como seu principal produto, levou autores a analisar a chamada “sociedade do espetáculo”. Guy Debord começou nos anos 60, um estudo da sociedade moderna ao caracterizá-la como a sociedade do espetáculo. Debord aplicava uma visão política à produção midiática, onde o espetáculo surge como um elemento alienante das massas, de “docilização” dos indivíduos e de despolitização do público.
Kellner, embora influenciado por Debord, considera a sociedade do espetáculo sob outro viés. Acredita que o espetáculo permeia todas as atividades da vida cotidiana, atingindo da política ao esporte, da moda às artes. Na sociedade moderna globalizada (leia-se ligada ao neoliberalismo, por definição apresentada neste blog de Muniz Sodré), Kellner defende que a sociedade moderna vive numa realidade do infoentretenimento.
Com base nos Estudos Culturais Críticos, é importante observar que a produção da mídia não significa uma imposição maniqueísta à audiência, como fosse fantoches sem forças para resistir aos tais produtos. Portanto, não deve-se pensar na cultura da mídia como um processo determinístico, mas na linha dos estudos de recepção considera-se que o público pode não aceitar as mensagens produzidas pelas classes dominantes e fazer a sua própria leitura. “Um estudo cultural crítico conceitua a sociedade como um terreno de dominação e resistência, fazendo uma crítica da dominação e dos modos como a cultura veiculada pela mídia se empenha em reiteirar as relações de dominação e opressão” (p.12)
Segundo Kellner, a própria mídia oferece recursos que possíbitem à audiência resistir aos significados da classe dominante induzidos através dos produtos midiáticos. Quer dizer: o público não está consumindo apenas entretenimento, mas conteúdo simbólico que podem formar a sua identidade. Mas, este público tem meios para resistir a esta cultura e rejeitar o que é oferecido pela indústria da mídia.
É notável observar na mídia a intenção de moldar a audiência ao gosto dos dominantes, às suas ideologias culturais e ao seu pensamento político. Esta é uma forma eficaz de manipulação e de domínio, como exemplificado por Muniz Sodré. Se antes os impérios conquistavam territórios com base na força, hoje é com base na produção simbólica, na disseminação de sua produção cultural. Isso é visto a partir da massificação global dos produtos estadunidenses, com destaque para o cinema. Produções de entretenimento com finalidade de difusão de conteúdo simbólico e hegemônico. Volto a tratar do assunto consumo e mídia, em seguida.