segunda-feira, 11 de outubro de 2010

BIOS VIRTUAL DE MUNIZ SODRÉ


O aspecto da mudança na comunicação nas últimas duas décadas, sobremodo na passagem do século, tem caracterizado o primeiro capítulo do livro do professor Muniz Sodré (“Antropológica do Espelho” - foto ao lado). Especialmente, neste período, a informação recebe uma variedade de formas (sons, imagens, dígitos) e transformam-se em produtos num mundo globalizado (para não dizer, moldado pelo neoliberalismo). O cenário leva o nome de “sociedade da informação” e, com o advento da internet, esta sociedade se dinamizou.
A internet insere-se no campo tecnológico que levou muitos a tratá-la como a grande invenção da virada do século, compadada à imprensa, aos tipos móveis de Gutenberg. A mudança comportamental em pessoas e instituições provocadas pela rede lembra uma “revolução”, a “Revolução da Informação” – como um segundo momento, após a Revolução Industrial –, que Sodré não concorda. muito: “As transformações tecnológicas da informação mostram-se francamente conservadoras das velhas estruturas do poder, embora possam aqui e ali agilizar o que, dentro dos parâmetros liberais, se chamaria “democratização” (p. 13).
Muniz acredita que o melhor termo seria “mutação tecnológica”, por “não se tratar de uma descoberta linearmente inovadora e sim, de inovação tecnológica do avanço científico”. O livro de Sodré é muito claro, com uma linguagem clara, objetiva que orienta e ao mesmo tempo contextualiza neste tempos de comunicação em rede. O autor, ainda tratando do assunto da revolução, lembra que a Revolução Industrial aproximava-se muito com a Revolução da Informação, quanto à maturação tecnológica. Cita, no entanto, que o forte da revolução industrial, que afetou costumes, a vida social, política e econômica, foi a invenção da ferrovia, na “mobilidade espacial”. Assemelha-se com a virtual, com a distribução de bens e da “ilusão da ubiquidade humana”. (p.14)
A semelhança não está tão somente no aspecto logísitico da informação (visto que passa a ser também um fator preponderante na sociedade da informação), uma infra-estrutura para a condução informacional, chamada por Sodré de “infovias”, mas um reordenamento mercadológico no mundo inteiro. A unificação da sociedade em rede transformou a vida do homem em suas relações sociais de trabalho, mas também o coloca em total vigilância, num “gigantesco dispositivo de espionagem global”.
É compreensível avaliar o pensamento de Sodré partindo do princípio do que ele chamou a nova mídia de um novo “bios”, não uma vida encarnada, mas atrelada ao conceito aristotélico de “conhecimento, prazer e política”. Muniz estabelece o quarto bios, o midiático, a vida como espectro, a virtualidade. “É real, tudo que se passa ali é real, mas não da mesma ordem da realidade das coisas.”, comentou o autor, em reportagem da revista da Fapesp.
Como a mídia é espectro, uma representação, sua realidade não é palpável, mas essencialmente discursivo. O pensamento de Sodré caminha sob a perspectiva de uma vida espectral, onde a cada dia tudo é mais visual, e, portanto, uma nova realidade, “um outro bios”. Este novo bios também reconfigura as concepções sobre jornalismo e meios de comunicação. Para Sodré, a TV, por exemplo, não age como um ator social isolado, mas suas manifestações são determinadas por fatores sociais e regionais. Ou seja, mesmo com atuação transnacional, a televisão produz efeitos específicos e regionalizados. “Enfim, no bios virtual, o objeto predomina sobre o sujeito”, afirma, na reportagem.
Baseado na ideia de simulacro, do espectro, Muniz amplia o conceito de mídia, que não baseia-se no princípio puramente do aparato técnico, mas transcende a TV, o rádio, o cinema, a internet, o jornal. Como em processo amplo de mediação (como Silvestone vê na circulação de significados, Barbero nas relações culturais), Sodré sinaliza para a mídia que atua no controle das relações sociais e o controle das novas subjetividades através das tecnologias de informação.
Portanto, vale observar este trecho da reportagem da revista da Fapesp:
“A partir de uma realidade sistêmica que foi ponto de partida e ponto de chegada das análises de Habermas, nasce essa verdadeira forma de vida que é o bios virtual. A ponta desse iceberg é o bios midiático, espécie de comunidade afetiva, de caráter técnico e mercadológico, onde impulsos digitais e imagens se convertem em prática social. É esse o objeto dessa nova ciência social chamada comunicação para Sodré.”

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